Agronejo: como gênero reúne música, influenciadores, rodeio e marcas para criar nova estética para o agro

Veja como agronejo se tornou ecossistema cultural do agro Da moda de viola ao sertanejo romântico, do universitário ao feminejo, a música sertaneja sempre so...

Agronejo: como gênero reúne música, influenciadores, rodeio e marcas para criar nova estética para o agro
Agronejo: como gênero reúne música, influenciadores, rodeio e marcas para criar nova estética para o agro (Foto: Reprodução)

Veja como agronejo se tornou ecossistema cultural do agro Da moda de viola ao sertanejo romântico, do universitário ao feminejo, a música sertaneja sempre soube se reinventar. Ligado à cultura do rodeio e das festas de peão, o gênero se afastou da estética rural em alguns momentos para alcançar novos públicos. O agronejo faz o inverso. Traz o pop, o funk e a música latina para se reaproximar da estética agro e narrar a vida no campo, ainda que em sua forma luxuosa e de ostentação. Para isso, vai além do palco: em torno do gênero cresceu um ecossistema que reúne composição, influenciadores, marcas, esporte e licenciamento de produtos. Em Barretos, esse arranjo aparece inteiro. Na arena, a final do campeonato brasileiro de montaria em touros termina e o show sertanejo começa. No camping ao lado, influenciadores montam estruturas de marca e transmitem tudo ao vivo. A poucos metros, uma empresa de música mantém um rancho onde artistas, criadores de conteúdo e patrocinadores dividem o mesmo espaço. As três coisas acontecem na mesma noite, no mesmo t erreno, e funcionam juntas em um ecossistema que se tornou a trilha sonora de um setor econômico. 📱 Faça parte do canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Ana Castela é a principal expoente do agronejo no país Érico Andrade/g1 Simone Pereira Sá, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) que pesquisa música pop e plataformas digitais, situa o fenômeno num movimento mais amplo. "O que eu vejo no agronejo é o mesmo movimento de modernização das músicas pop periféricas, que vai aparecer também em outros gêneros: brega funk em Recife, o próprio funk. Daí vêm as batidas eletrônicas." O traço que distingue o gênero, para ela, está no tipo de campo que ele canta. "Ele é do campo, ele é rural, mas ele usa tratores modernos, tecnologias. Tem um elogio da tecnologia." "A gente traz o nosso papo com estilos diferentes" Quem faz a música descreve o processo de forma parecida. A dupla CountryBeat, que este ano subiu pela primeira vez como atração principal do palco de Barretos, começou compondo para outros antes de virar artista. "O agronejo se saiu tão bem dentro do cenário por ser diferente. A gente pegava o que já se falava de papo e trazia com um estilo diferente: com funk, com pagode, com lambada. É essa diversidade que faz chegar longe", diz Leo Souzza. A trajetória deles na festa resume a ascensão do gênero. O primeiro show foi no Palco Amanhecer. No ano seguinte, tocaram na arena. Neste ano, chegaram como atração principal. "Barretão eu falo para todo mundo que é a Copa do Mundo do sertanejo. Todo mundo quer estar aqui, não tem jeito." CountryBeat, que estreou no palco principal de Barretos, é o grande compositor do agronejo no país Ricardo Nasi/g1 Ecossistema cultural Segundo o site da AgroPlay, os artistas da casa somam mais de 30 milhões de seguidores nas redes sociais e mais de 9,3 bilhões de visualizações. O faturamento não é divulgado pela empresa. Apesar do sucesso musical, o agronejo também deixou de caber apenas no palco. A AgroPlay, escritório que agencia Ana Castela, foi criada no fim de 2021 e fica em Londrina, no Paraná. Hoje tem 350 colaboradores e vários artistas e influenciadores. A empresa mantém outras frentes. A AgroPlay Digital agencia influenciadores e criadores de conteúdo do agro. A AgroPlay Sports atua no esporte. A AgroPlay Praise trabalha com música gospel. O Instituto AgroPlay é o braço social da companhia. No site, a empresa se descreve como "um dos maiores escritórios artísticos do Brasil". Há ainda a AgroPlay Kids, frente infantil, e uma operação de licenciamento de produtos que inclui a personagem Turma da Boiadeirinha, uma linha de material escolar e a loja da Ana Castela. Música, influência e esporte, os três eixos que se cruzam na festa, estão sob a mesma estrutura empresarial. A cantora que canta a vida no campo é também uma marca licenciada em caderno escolar. LEIA MAIS Campeão mundial e vencedor do The American: Rodeio Internacional reúne estrelas da montaria em touros em Barretos Resumo do Barretão: homenagem a Lito Sousa, emoção de Simone Mendes e briga de influenciadores no camping Paula Fernandes canta "Ave Maria" em cima de cavalo na abertura do Rodeio Internacional Um dos sócios é Raphael, da dupla Léo & Raphael, apontada pelo site da própria empresa como precursora do movimento, com músicas como "Agro é Top" e "Os Menino da Pecuária". A sociedade foi formada com Rodolfo, ex-integrante da dupla Fabinho e Rodolfo, e com o diretor de marketing Everton Albertoni. Camping da Agroplay em Barretos é vitrine do movimento agronejo e reúne artistas, influenciadores e marcas Igor do Vale/g1 As informações sobre a estrutura da empresa foram confirmadas pela assessoria da AgroPlay, que não concedeu entrevista com os sócios até a publicação desta reportagem. A pesquisadora da UFF impõe um limite ao poder das produtoras nesse mercado. "Nenhuma produtora, nenhuma empresa consegue impor um gosto aos consumidores. Não é porque uma empresa está produzindo agronejo que ele está bombando. Os consumidores estão interessados." "Eu imitava um sotaque que não era o meu" O discurso da indústria é o da reparação. No site da AgroPlay, o gênero aparece como resposta a um estigma: "se por muito tempo o trabalhador do campo era visto como o 'caipira', 'roceiro' ou outro termo pejorativo, o agronejo faz questão de valorizá-lo e colocá-lo em evidência". Quem viveu esse estigma descreve a coisa por dentro. Gustavo Tubarão está no terceiro ano consecutivo em Barretos e virou um dos rostos do agro nas redes sociais. Ele levou anos para deixar de esconder a própria origem. Gustavo Tubarão é um dos influenciadores do agro mais bem sucedidos nas redes Lucas Zanetti/g1 "Eu comecei gravando o conteúdo, até imitava um sotaque que não era o meu, imitava um sotaque paulista, porque eu pensava que tinha alguma coisa de errado com o meu sotaque caipira. A partir do momento em que eu comecei a ser eu de verdade, as coisas começaram a fluir." A virada, para ele, tem uma referência clara. "Um dos maiores exemplos que eu uso hoje é Ana Castela. Ana Castela é uma garota também do interior que virou um fenômeno no Brasil inteiro. E a mesma época em que ela estourou foi a mesma época em que eu estourei também como influenciador." Tubarão também responde à crítica de que o público novo da festa não teria ligação real com o campo. "Tem muita gente que critica: 'ah, está indo para Barretos, nunca viu um rodeio, nunca pisou numa terra'. Isso é muito importante. A vida inteira o povo do interior foi taxado como bobão, principalmente eu, que sou do interior de Minas. Estar num hype hoje é muito bom, porque a nossa cultura está sendo vista, reconhecida e respeitada no Brasil inteiro." Agronejo reinventa estética sertaneja ao modernizar vida no campo Érico Andrade/g1 A ponte com o rodeio A terceira engrenagem é o esporte. A própria indústria da montaria reconhece a ambiguidade dessa relação. Flávia Moraes, CEO da PBR Brasil, que realizou a final do campeonato brasileiro na arena de Barretos, define assim o papel da liga: "A PBR é uma ponte do interior do agro com as pessoas da cidade." Ela admite a crítica de que o público valoriza o show acima da montaria, e aponta a responsabilidade para dentro de casa. "Até tem uma polêmica: valorizam só o show e o rodeio não. Mesmo que tenha alguma verdade, se existe alguma desvalorização, talvez foi por culpa da indústria, que não se impôs, que não colocou as necessidades, que não se comunicou direito." Para ela, a explosão da estética country é um movimento global para o qual o setor se preparou. "O momento em que a gente vive é muito propício. A figura do cowboy se tornou mundial, e as pessoas estão voltando às raízes." Paula Fernandes canta "Ave Maria" na abertura do rodeio internacional da Festa do Peão de Barretos 2026 Ricardo Nasi/g1 Leia mais notícias da Festa do Peão de Barretos 2026